Tuesday, 28 Sep 2021

CULTURA INCLUSIVA: CONHEÇA A INICIATIVA DE TRADUÇÃO DE MÚSICAS EM LIBRAS DO INSTITUTO DOM QUIXOTE

O dia 24 de abril celebra um marco importante para a comunidade surda de todo o Brasil. Nele, comemora-se o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (Libras). A data foi escolhida porque marca o dia de publicação da Lei 10.436/02, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais. A Libras é o sistema linguístico de comunicação e expressão da comunidade surda do Brasil, que é composta por uma parcela significativa da população: de acordo com estudo realizado em 2019 pelo Instituto Locomotiva em parceria com a Semana de Acessibilidade Surda, existem 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva no Brasil. Dentre essas, 2,3 milhões possuem deficiência severa.

Nesse dia tão simbólico, te lançamos a pergunta: você já parou para pensar em como os surdos acessam a música e o entretenimento? A deficiência auditiva confere a essas pessoas uma experiência diferente, o que não significa que elas não apreciem esses conteúdos. Mas um grande obstáculo é a falta de acessibilidade, ou seja, a falta de meios que possibilitem o acesso a esses produtos. 

Visando combater esse problema, o Instituto Dom Quixote passou a fornecer um importante serviço: a interpretação de músicas em Libras. Atualmente, a organização, voltada para o planejamento e execução de projetos sociais junto a empresas e comunidades, conta com 4 intérpretes contratados para essa iniciativa. O serviço é realizado por um preço acessível para artistas e instituições que se interessem em tornar seu trabalho acessível para a comunidade surda. 

Nathália Laila, tradutora e intérprete de Libras do IDQ, destaca que a interpretação em Libras impacta de forma muito positiva o consumo de música pelas pessoas surdas. “Existe esse mito de que o surdo não tem interesse pela música por não ouvir, porém essa ideia é completamente errônea. Uma grande parte dos surdos gosta muito de música. Claro que inicialmente pelas sensações, pelas batidas, pela vibração da música, mas quando eles têm acesso à letra, ao conteúdo sinalizado pelo intérprete de Libras, para eles faz toda a diferença e, assim como para a gente que é ouvinte, é completamente prazeroso”, afirma.

A ideia dessa iniciativa começou em 2019, quando o Instituto Dom Quixote, em parceria com a produtora Badaladinha, realizou o Festival Conecta, em Divinópolis. Todos os artistas que se apresentaram no evento tiveram suas canções interpretadas em Libras simultaneamente ao longo dos shows. O sucesso do festival foi o incentivo para que o serviço fosse prestado de maneira constante. É o que conta o diretor de projetos do Instituto Dom Quixote, João Vitor Silva de Aquino. “Naquele dia, nós conversamos com muitas pessoas da comunidade surda que falaram da importância daquela iniciativa que tivemos, pelo fato de que o acesso ao entretenimento, à cultura como um todo, é muito limitado para a comunidade surda. E foi daí que surgiu a ideia de estabelecer esse projeto do IDQ. Hoje, estamos trabalhando com artistas, clipes, iniciativas culturais, para que a gente possa possibilitar que a comunidade surda tenha o máximo possível de acesso a entretenimento”, conta. 

Intérprete Nathália Laila, do Instituto Dom Quixote, no Festival Conecta, em 2019.

Outra preocupação do Instituto Dom Quixote é fazer com que o conteúdo traduzido chegue até as pessoas com deficiência auditiva, através da divulgação nas redes sociais. “Além de promovermos a interpretação, nós buscamos levar esse conteúdo até locais onde a comunidade surda normalmente está inserida, que são os perfis no Instagram que já trabalham com Libras há muito tempo, algumas associações de surdos que existem em muitas cidades, enfim. E o retorno é sempre muito positivo”, afirma João Vitor. 

O cantor Rafa Bicalho foi um dos artistas que contaram com o serviço de tradução do IDQ. O videoclipe da canção “Só Você Me Ligar”, lançado pelo cantor em março, foi disponibilizado com interpretação em Libras. Nas palavras de Rafa, ver a versão na Língua Brasileira de Sinais “foi como ouvir a música pela primeira vez de novo”.  Ele fala sobre a importância do serviço fornecido pelo instituto: “Como todo projeto de inclusão, eu acho extremamente necessário. E, pensando a execução do IDQ, eu acho muito massa o jeito que eles fazem isso na maior escala que eles conseguem, não só com clipes de banda. A seriedade que eles têm, mostrando que é uma preocupação verdadeira e uma ação sincera. Essas ideias são muito necessárias e inspiradoras”, comenta o artista.

Clipe da música “Só Você Me Ligar”, do cantor Rafa Bicalho, com interpretação em Libras do IDQ.

A música “Só Você Me Ligar” foi traduzida pela intérprete e estudante de direito Bruna Lage. Ela conta que recebeu um retorno muito positivo do público com o trabalho realizado pelo IDQ. “Muitas pessoas vieram até mim com o interesse de aprender libras, inclusive. Já recebi muitas mensagens de pessoas perguntando onde elas poderiam fazer aulas, como eu aprendi, qual foi meu método, quais pessoas eu seguia no YouTube. Principalmente depois do vídeo do Rafa [Bicalho], eu recebi muita mensagem desse tipo”, afirma. A estudante também enfatiza a importância da criação de políticas públicas de acessibilidade. “Arte, conhecimento, tudo tem que chegar para todo mundo, de todas as formas. Mas fazer com que esse conhecimento chegue a todo mundo é que é o desafio. Eu penso que seria muito interessante se houvesse esse incentivo para aprender Libras no Ensino Básico, iniciativas em museus, em espaços de cultura, de ter um suporte para as pessoas surdas, ter o braille acessível”, comenta.

Devido à pandemia, a tradução de Libras em festas e festivais presenciais não está sendo disponibilizada no momento. Mas a interpretação de músicas em videoclipes e iniciativas culturais diversas segue em andamento, com lançamentos em breve. Para o diretor de projetos do Instituto Dom Quixote, João Vitor Silva de Aquino, o trabalho da organização faz a diferença tanto para os surdos quanto para os ouvintes: “Existe a importância [do projeto] para a comunidade surda, certamente, em termos de acessibilidade, mas também estamos promovendo toda uma conscientização na comunidade ouvinte, que passa a refletir sobre cultura e acessibilidade de uma forma mais palpável. É importante a conscientização dentro da comunidade ouvinte, para que essa luta não seja só da comunidade surda, para que os ouvintes sejam aliados na luta pela acessibilidade e inclusão”.

Clipe da música “Checklist”, da banda Velejante, com interpretação em Libras do IDQ.

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