Tuesday, 28 Sep 2021

MARINA SENA E O POP AUTENTICAMENTE BRASILEIRO

Marina Sena

(Foto: Sarah Leal/Divulgação)


CANTORA É A ESTRELA DE AGOSTO DA LUZEIRO E, EM ENTREVISTA EXCLUSIVA, FALA SOBRE VIDA, CARREIRA MUSICAL E DISCO DE ESTREIA – DISPONÍVEL NESTE MÊS

Marina é uma daquelas cantoras que, de primeira, você escuta e nunca mais esquece. Se ouvir de novo, provavelmente já vai saber quem é. Sua voz sempre me lembrou Gal Costa e, curiosamente ou não, essa é a maior referência musical da cantora. As duas não só nasceram no mesmo dia, como possuem grande similaridade entre si: ousadas, intensas, potentes e muito brasileiras. “Ela, pra mim, é a maior do mundo. Não existe ninguém. Ela é tudo que há de melhor na música, na performance, em tudo”, afirma. A própria Marina confessa que já ouviu de muitas pessoas, principalmente das mais velhas, que ela é “a nova Gal Gosta”. Mas prefiro dizer que ela é, simplesmente, Marina Sena.

ESTRANHA… OU ARTISTA?


Nascida em Taiobeiras, pequena cidade localizada no norte de Minas Gerais, Marina Sena levou um tempo até entender e aceitar a sua inclinação ao fazer artístico. A cantora cita a criação da mãe como um ponto importante nesse processo de autoconhecimento: “Eu gostava de cantar, de dançar, de gritar, de ficar aparecendo para os outros… E se eu queria ficar o dia inteiro cantando e gritando, ela deixava. O povo reclamava e ela não tava nem aí. Minha mãe nem tinha noção que estava criando uma artista, é só porque ela é essa pessoa mesmo que não gosta de ficar podando ninguém.” A mãe foi responsável em criar uma das primeiras fábricas de lingerie de Taiobeiras, fato que ajuda a entender o jeito libertário de criar a filha. “Minha mãe viaja para o Norte de Minas inteiro de carro, vendendo lingerie. Então minha vida foi dentro de tecido, enrolada em elástico, no meio de máquina, sutiã e calcinha”, conta Marina.

Na cidade natal, que possui pouco mais de 33.000 habitantes, a mineira passou 18 anos de sua vida. Lá, sua expressividade e a falta de pudores eram pouco assimilados, até mesmo por ela própria. “Eu me achava super esquisita em Taiobeiras, ficava achando que tinha algum problema comigo”. Aos poucos, o contato cada vez mais intenso com a arte a fez entender que tudo aquilo eram sinais de algo ainda maior: o desejo de ser artista. A partir disso, a ideia de si própria como alguém “esquisitinha” deu lugar ao empoderamento: “Quando você entende o que você é, você também entende a sua beleza, o seu papel e a sua importância. E aí eu decidi trabalhar com isso, decidi vibrar na artista”.

(Foto: Instagram)

Aos 18 anos, determinada em germinar as sementes artísticas plantadas no sertão mineiro, Marina deixa a cidade natal e vai para Montes Claros – a “capital” do Norte de Minas – para tentar a carreira de cantora. Ela admite que essa decisão a tornou, de fato, muito mais confiante, mas também não deixa de reconhecer a importância que Taiobeiras tem em sua história.

“Amo o fato de ter nascido lá. É um lugar que eu fiquei blindada de muitas coisas, de várias informações da globalização. E não é que a gente não é globalizado lá, a gente é, mas tem várias afetações que a gente não recebe, e que deixaram o meu processo criativo mais puro, sabe? Eu já não era uma pessoa com muitos pudores, e ainda não recebia um tanto de informação… Então tudo o que eu faço virou muito autêntico”.

Marina Sena


Bom, e por que Montes Claros? “É a maior cidade do norte de Minas, né, então é o lugar que todo mundo vai. Mesmo assim, é uma cidade pequena”, admite. Aliado a tal fato, a decisão de ser cantora se chocou com a realidade e seus “perrengues”: sem dinheiro e diante de inúmeras dificuldades, contava apenas com o apoio da mãe, que mandava por táxi, toda semana, uma feira à filha, além de pagar o seu aluguel. Com isso, Marina conseguia se dedicar 100% à sua carreira, e por isso enfatiza a importância do apoio familiar: “Eu tive oportunidade da minha mãe conseguir me sustentar e não é todo mundo que tem isso. Cada realidade é uma realidade. Eu tive os meus privilégios, tive oportunidades que a maioria [dos artistas] não tem”.

MARINA SENA? QUE MENINA É ESSA?


Com lar e comida garantidos, agora Marina tinha planos muito bem definidos: prometeu à mãe que, em cinco anos, ia se sustentar como artista. Estava determinada em fazer isso acontecer. E foi exatamente o que aconteceu, através d’A Outra Banda da Lua e, posteriormente, da Rosa Neon. Mas até chegar lá, muitas outras coisas também se desenrolaram. O começo de tudo foi na rua: Marina pegava o seu violão e ia, diariamente, à Praça da Matriz – um dos principais pontos turísticos de Montes Claros. E, ao ver qualquer rodinha de gente, soltava o convite: “Posso tocar um violão pra vocês?”. “De início, a galera desconfiava, mas quando eu começava a cantar eles ficavam chocados: ‘meu Deus, menina, de onde você saiu?! Do nada?’”, relembra.

Entre muitas performances de Amy Winehouse e Rita Lee, a taiobeirense foi conquistando o seu espaço na região, ficando conhecida como “a menina que tocava violão na Matriz”. Tempos depois, veio a primeira oportunidade: um convite para virar vocalista da banda Baru Sonoro, grupo musical de Montes Claros. A chance veio através de uma performance de um dos clássicos de Rita Lee, “Ovelha Negra”, realizada durante a festa de uma amiga: “Eu tinha um cabelão, me vestia toda caracterizada de paz e amor. O tio dela era da banda, me viu lá e me chamou pra ir no ensaio do Baru. E eu nunca tinha visto uma banda autoral na minha vida, só o Swingão do Ghetto, que é um pagodão lá de Taiobeiras, mas nunca tinha visto nada que não fosse ligado ao pagodão e que fosse autoral. Quando eu vi eles cantando as músicas deles, eu fiquei completamente emocionada”. O convite foi feito e aceito naquele mesmo dia, e a parceria se manteve durante seis meses.

A Outra Banda da Lua (Foto: Thiago Botelho/Divulgação)

De uma oportunidade, veio outra: A Outra Banda da Lua. O nome do grupo já era idealizado há muito tempo pela jovem Marina e a sua passagem pelo Baru Sonoro fez o sonho se concretizar, ao lado de Mateus e Edson, ex-integrantes do grupo: “Mateus tocava baixo no Baru e tornou-se baterista. E Edson, que foi um dos fundadores do Baru, também entrou. Foi nós três que criamos a banda. Mas, naquela época, a gente nem tocava música autoral, isso foi só depois. Naquela época, a gente tocava em boteco”. No meio de instrumentos, o grupo se apertava no carro para viajar por todo o estado mineiro, e tocava em inúmeros lugares. Relembrando tais perrengues, Marina confessa: “Hoje em dia, eu não faço mais isso não, agora eu fiquei nojentinha!”.


Entre as inúmeras viagens com A Outra Banda da Lua, surge, no final de 2018, a parceria que ia mudar a carreira musical de Marina. Em Milho Verde, município do interior de Minas Gerais, o encontro casual com Marina Cavanellas (na época, com a Lamparina e a Primavera), Luiz Gabriel Lopes e Marcelo Tofani (tocando juntos a turnê Capiau Elétrico), deu origem ao Rosa Neon. A ideia do nome vem da música composta pela própria Marina, e foi a canção tocada pelos amigos durante a decisão de formar um novo grupo musical: “Foi a primeira música que a gente tocou e ficamos apaixonados! Ficou muito bom a gente cantando junto. Mas a Rosa Neon foi perrengue, viu? Parecia que a gente tava apagando incêndio o tempo inteiro. Sugava a alma da gente, de tanto que a gente trabalhava”.

Rosa Neon
Rosa Neon (Foto: Sarah Leal/Divulgação)

Durante os próximos dois anos, o árduo trabalho desenvolvido pelo quarteto foi ganhando cada vez mais evidência no cenário musical brasileiro. “A gente nem viu o trem acontecer. Quando aconteceu, já tava gigante! Foi muito rápido e muito bom. Foram 10 anos em 2, a gente cresceu num intervalo de tempo muito pequeno. Elevou a gente no profissionalismo e no entender como trabalhar”, lembra a cantora. O anúncio do fim da banda veio em março de 2021, através do single A Gente É Demais. A canção, alegre e envolvente, celebrou a liberdade e marcou a possibilidade de investir em novas etapas para cada um dos integrantes da Rosa Neon – que naquele momento contava apenas com Marina, Tofani e LG.


DE PRIMEIRA, (RE)CONHEÇA MARINA SENA

Assim como aos demais integrantes, o novo ciclo musical de Marina veio através da construção de sua carreira solo. Em janeiro de 2021, a cantora já tinha se despedido d’A Outra Banda da Lua e deu o start à carreira solo ainda no mesmo mês, com a contagiante Me Toca. Alguns meses depois, em junho de 2021, veio Voltei Pra Mim, o segundo single do álbum. A canção fala sobre uma relação afetiva com outra pessoa, mas também diz muito sobre o novo momento de sua carreira: “Amor, eu te deixei / Pra ir atrás do que eu sonhei”.

Quando questionada sobre como era se enxergar em uma carreira solo, depois de anos tocando em dois grupos musicais, Marina não tardou: “Aprendi muito, mas o solo é bem melhor! Sou uma pessoa que gosto da opinião das pessoas, amo abrir mão da minha opinião para uma opinião melhor. Mas a questão da banda é que, na maioria das vezes, a sua opinião é suprimida, né? Não porque tem outra melhor, mas porque também tem que dar oportunidade pra todo mundo opinar. Aí, às vezes, dá uma preguiça disso. Já no solo, você dá sua opinião e, se ela for melhor, eu vou acatar. Caso contrário, não vou acatar. E é isso.”

A trajetória com A Outra Banda da Lua e a Rosa Neon possibilitou mais estrutura e também mais possibilidades. Entretanto, as dificuldades de uma carreira solo existem e os velhos perrengues permanecem. Mas, segundo a própria cantora, são “perrengues chiques”. “Eu quero ter muito mais estrutura, quero poder pagar muito mais pras pessoas trabalharem comigo. E eu tenho parceiros, tipo o Vito Soares e a Sarah Leal, que estão comigo em absolutamente tudo que envolve audiovisual, e eu quero que eles fiquem ricos, sabe? A minha meta é basicamente essa: ficar rica e que todo mundo perto de mim fique rico também!”. Marina faz questão de trazer ao mainstream os inúmeros artistas e profissionais do Norte de Minas que, muitas vezes, não possuem o reconhecimento e acesso que merecem. “Ou você é muito rico, ou vai ter que ser na raça”, confessa, “e esse foi o meu caso”.

Ainda sobre as dificuldades da carreira solo, Marina reformula: não são dificuldades, e sim responsabilidades. Como cantora solo, a única saída é dar a cara à tapa – algo que ela já faz há anos. Por isso, afirma que a preparação já vem de muito tempo. E, agora, ela sente que realmente está pronta para dar conta e construir a trajetória solo de Marina Sena. Logicamente, os medos existem, principalmente para alguém que, durante tanto tempo, se viu “isolada” do mundo, na pequena Taiobeiras. Ver os sonhos se realizando, perceber tudo o que está alcançando… a fama às vezes assusta, mas não a paralisa. “Dá um frio na barriga, mas eu fico tão de boa… porque eu já sou uma pessoa muito reservada, sabe? Eu gosto de chamar atenção na hora que é pra chamar atenção: no palco. Se quiser gostar de mim, vai ter que gostar da música e da performance. É pela arte mesmo. Você não vai ser tocado pela fofoca da minha vida. Até porque, fofoca da minha vida? Mais parada do que eu…”.

Em contramão à sua vida pessoal, a carreira musical de Marina se agita mais a cada dia que passa. O último single, lançado em junho, já possui clipe com mais de 900.000 visualizações no Youtube, além de marcar presença em inúmeras playlists pelos streamings afora. No final de julho, Marina foi anunciada, ao lado da banda Tuyo, como os representantes brasileiros na 2021 Foundry Class – programa global de desenvolvimento de artistas independentes da plataforma.

(Foto: Instagram)

A cantora não pára por aí: o disco de estreia, De Primeira, chega no próximo mês de agosto e conta com 10 faixas inéditas. Com produção musical de Iuri Rio Branco, o álbum começou a ser produzido em 2020, no início da pandemia, de forma virtual. O encontro entre os dois foi acontecer só em junho do mesmo ano, para gravar as vozes e finalizar os últimos ajustes. Inclusive, Me Toca e Voltei Pra Mim, os dois primeiros singles do álbum, nasceram após o encontro presencial entre Iuri e Marina e acabaram por tomar o lugar de outras duas canções do disco.

Tudo foi tão simples, sabe? Às vezes, fica parecendo que a gente entrou numa imersão, pesquisou e tal, mas não foi isso. E eu não sou muito disciplinada, do tipo: ‘ai, agora vamos concentrar aqui e fazer uma pesquisa’, essas coisas não acontecem comigo. Eu não saberia falar o que queria, não conseguiria explicar. Eu precisava muito que a capacidade de leitura dele [Iuri] fosse tão grande que ele ia pegar a música, ia ler, olhar pra minha cara e entender o que tinha que fazer. E foi exatamente isso o que aconteceu! Então bateu tudo, o disco me representa pra caramba.

Marina Sena

E o que esperar do disco de estreia? Muita brasilidade e modernidade, ou seja, o melhor dos dois mundos – segundo a própria. É um álbum pop, intenso, dançante, mas também leve e íntimo – uma mistura que já é a clássica de Marina, realizada de forma majestosa em todos seus trabalhos. “Tudo que tá ali, sou eu. Eu sinto tudo isso, é assim que eu penso. Também sinto uma sensação de nostalgia com o disco, como se fosse uma coisa que já existisse há muito tempo”. E, de fato, ele existe: cheio de referências à cultura brasileira e ao mundo que a rodeia, Marina declara: “Eu comecei a fazer esse disco quando eu nasci. Viver, sentir as coisas e passar isso pra arte: isso faz parte do meu trabalho”. Logo, “De Primeira” será o trabalho que fará o público conhecer, de fato, quem é Marina Sena. E daí em diante, só há uma única certeza: o Brasil será pequeno pra ela.





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