Friday, 1 Jul 2022

WELL: CONCEITO, COLETIVIDADE E COTIDIANO

(Foto: Bruno Filipi | @brunofilipi)


Well é a Estrela de Novembro da Coluna Luzeiro! Assim como muitos artistas independentes, ele não vive exclusivamente do rap: aos 29 anos e formado em Design, o mineiro trabalha como designer de interface. Já na música, os trabalhos autorais começam em 2014, mas a sua trajetória como artista e compositor já vem de mais tempo. O primeiro gatilho artístico veio através do desenho e, principalmente, da necessidade latente de se expressar. “A faísca surgiu muito cedo. A vontade de me expressar foi muito presente, de escrever, de fazer alguma coisa, de pôr pra fora o que eu estava sentindo… isso vem de muito tempo, nem sei dizer de quando”.


DO PAGODE ÀS BATALHAS DE MCs


O desejo de se aventurar musicalmente veio das referências locais e cotidianas. “Os manos da minha área tinham uma banda de pagode e era muito louco você ver os manos mais velhos fazendo música, saca? Os caras quebrando a cabeça, ensaiando e tirando música que tocava na rádio”, comenta.

Nascido em Nova Lima, cidade localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Well não queria necessariamente cantar ou tocar, mas apenas fazer parte daquele movimento. Entretanto, naquele momento, além da insegurança em cantar, ele não tinha condições financeiras para investir em um instrumento.

A explosão de sentimentos, ideias e vontades teve que ser direcionada à outra paixão: o basquete. Foi nessa época que conheceu o streetball (em português, basquete de rua), a variação ao ar livre do esporte. “Lá [no streetball] sempre tinha rap. Então eu comecei a achar aquilo muito doido, porque eu era apaixonado por basquete e o streetball trazia toda aquela beleza, né? Dribles e tudo mais, coisa de rua. Aí lá eu pensei: é hip-hop, saca? Isso é legal. Mas ainda não tinha tido a vontade de fazer”. Naquela época, com uns 16 anos, por mais que o rap sempre fosse o som que mais gostou de ouvir, Well nunca imaginou ser possível se tornar um artista do gênero.

Enxergar o rap como uma possibilidade veio através do consumo dos artistas nacionais – mais especificamente, os artistas do rap underground (como Kamal e Emicida). “Facção Central, Realidade Cruel, Racionais, DJ Alpiste, Provérbio X… eu ouvia esses discos mais aclamados e pensava: ‘pô, preciso de um milhão de coisas pra chegar nesse nível’. E quando você vê um rap underground, os caras fazendo música dentro do quarto, eu falei ‘opa!’. Aí a questão do custo não existia mais”.

A partir daí, Well foi conhecendo os artistas locais de sua cidade natal e participando dos eventos, até chegar ao local que mudou a sua vida: o Duelo de MCs de Belo Horizonte.



Naquela época, por ser muito novo, Well ainda não levava o trabalho de fazer rap muito a sério. Não tinha muita paciência e disposição para ficar escrevendo, por isso o jeito era improvisar nos duelos.

Na primeira vez que se inscreveu para participar, colocou o nome artístico de “Ervilha”: vestindo uma blusa verde, foi o melhor nome que conseguiu pensar no momento. “A sorte é que eu não fui sorteado nesse dia”, confessa. Aliás, a questão do nome continuou sendo um grande incômodo para ele.

A próxima oportunidade nos duelos veio um ano depois; naquele momento, se inscreveu como Welbert – seu nome de nascimento. “Naquela época, o hip hop ainda era muito aquele hip hop caricato dos anos 2000, saca? A galera de Belo Horizonte era muito hip hop 2000: roupa larga, bonezão e pá. Eu cheguei com calça mais justa, camisa xadrez, camisa de rock, bonezinho diferente… E aí eu lembro que o primeiro mano que eu batalhei era grandão, cheio dos estilos e aí eu dobrei o cara no meio!

Nesse mesmo dia, duas meninas vieram elogiar o seu trabalho, mas enfatizaram: “o problema é o seu nome, é muito difícil e feio. Mas a gente já pensou em um nome pra você: Well”. De início, a ideia não agradou – só a família o chamava assim. Já na segunda batalha, se inscreveu novamente como Welbert, mas o apresentador pegou o seu nome para ler e não conseguiu. “Aí as meninas escreveram num papel ‘Well’, levantaram pro cara e disseram: ‘o nome dele é esse aqui!’. Aí o mano falou: ‘a partir de agora, o seu nome é Well’. Todo aquele conflito existencial que eu tive pra me dar um nome de rapper foi resolvido nessa situação!”.

No primeiro dia que participou do duelo, Well já foi campeão e ficou entre os melhores de Minas Gerais. A partir daí, não parou mais. “O duelo me acomodou demais. Durante muito tempo, eu fiquei só nessa cena de improvisar, saca? Não me preocupava em escrever”. Ficou um bom tempo batalhando até cansar: chegou um momento em que não via mais perspectiva financeira e de carreira em improvisar, pois os duelos não eram o que são hoje.

Ele desejava alcançar voos maiores e projetos mais sólidos. Por isso, em 2014, se “aposentou” das batalhas e decidiu ir aos estúdios e trabalhar no seu disco de estreia.


GÊNESE (2016): SUBJETIVIDADE, DOR E LUTA


“Hoje, pra fazer um som, eu sento, pesquiso, vou buscando as melhores rimas, as que fazem mais sentido dentro do contexto do que eu quero falar. Antes eu não tinha esse compromisso, era tudo no freestyle, saca? Hoje eu não abandono tão fácil as minhas ideias igual antes porque, naquela época, eu não tinha muita visão de jogo, eu queria mais viver o processo, quebrar a cara, aprender… hoje em dia, eu já vejo que não tenho mais margem pra fazer isso: a gente vai crescendo e amadurecendo”


Lançado em 2016, o disco Gênese nasce da reunião das oito melhores letras que Well tinha composto desde que começou a escrever. Naquela época, ainda não levava o lance de escrever muito a sério, diferente do compromisso que ele tem hoje. A maturidade musical veio da necessidade e da vontade em seguir carreira, logo, foi algo que também veio naturalmente.

Todo esse processo fez com que passasse por vários problemas de insegurança, identidade, confiança e auto-estima. Mas, hoje, já se considera resolvido com tais questões: “Hoje eu tenho muito orgulho do que eu faço”



Ainda sobre a produção do Gênese, a própria iconografia do disco sintetiza o quão doloroso foi o processo de produção do álbum: ela representa a dificuldade em escrever e a dor em versar os sentimentos da época.

Devido à falta de experiência, o disco demorou dois anos para ser produzido, logo, o símbolo de um arame farpado no meio de um céu estrelado representa as dificuldades e os obstáculos, mas também a proteção em vencer e entregar um projeto. “[Esse primeiro disco] foi a base de tudo. Ali eu fui bem sincero. Tem música que eu pego pra escutar e eu lembro exatamente o que eu estava passando na época em que eu escrevi, saca?”.

Como exemplo, o rapper cita a canção “Fundo do Poço”. Nela, a letra sai como um choro. “Ao invés de chorar, você escreve”.

Atualmente, Well acredita que seus trabalhos já não carregam tantas questões subjetivas como antes. Ele tenta deixar de lado a visão mais introspectiva e focar em olhares mais externos e palpáveis ao público que o acompanha.

“Se perguntar qual o tipo de rap que eu gosto de fazer, é o tipo de rap que me remete a esses momentos [introspectivos], mas talvez não seja a hora de falar sobre isso, saca? Às vezes, eu vejo que o caminho foi muito invertido. A gente começou do topo, da onde a gente quer ser, do que a gente quer falar – e não se preocupou com quem a gente vai falar. Então, o Gênese me ensinou muito isso: primeiro, eu tenho que me preocupar com quem eu vou falar. Chegar na educação na mente dessas pessoas e aí sim apresentar o que eu tenho a dizer. Hoje, eu tento trilhar o caminho do início”.

Independente do que fala, Well enxerga a arte e a escrita como um ponto de fuga. É o momento em que senta, brinca e desafia a si próprio – como se estivesse montando um quebra-cabeças.

Ele confessa que, inicialmente, era muito ‘nerdão de rima’. Buscava sempre criar versos que rimassem com todas as sílabas, por exemplo. Se não fosse assim, ele não estava satisfeito. “Mas era a minha pira no momento, era a minha diversão. Hoje em dia, escuto esse tipo de rap e acho chato. Pra mim, hoje é mais leve. Eu me cobro menos e, consequentemente, consigo me divertir mais do que antes”.

Foi na batalha do dia a dia, quebrando a cara, que Well foi construindo a sua rede de contatos e colegas no rap. “Tudo foi resultado do meu trabalho. Eu fazia alguma coisa no duelo, aí alguém vinha, conversava e me convidava pra fazer uma parada”. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o produtor Everton Beatmaker – resultando na canção “Muito Bem Feito”, a colaboração com Djonga e uma de suas canções mais famosas.

Well conheceu o beatmaker quando foi à Juiz de Fora, durante uma batalha que o aproximou da cena rap da cidade. De 2016 pra cá, entre inúmeros singles e parcerias lançadas, hoje Well se encontra cada vez mais na cena – tanto individual quanto coletivamente.

Dessa maior estabilidade, nasce o seu último trabalho: o EP SPARRING.


SPARRING (2021): A NOSSA LUTA É O NOSSO CORRE


“Hoje em dia, o que me dá prazer é transformar a minha música em design”. Em SPARRING, seu último trabalho solo lançado em junho de 2021, vemos o extremo disso. Inicialmente, a ideia era que o EP fosse a introdução e a intercessão de um trabalho maior, um disco no qual Well retrataria as suas lutas e batalhas. Atualmente, o projeto está parado devido a outros lançamentos, mas a ideia segue viva.

E o que seria sparring? O termo em inglês representa o treino diário realizado pelos atletas em diversos esportes de combate. Logo, sparring é um treino, mas também é lutar com as mesmas regras do jogo.

Sendo o EP uma espécie de treino à luta final (o disco), Well utiliza-se do conceito para mostrar ao público as suas batalhas. “A nossa luta é o nosso corre. É trabalhar e depois emendar a noite fazendo letra, é ir no estúdio final de semana porque é o dia que dá, é ter que virar um dinheiro pra poder comprar uma roupa pra gravar um clipe… essa correria que a gente faz para viabilizar os nossos sonhos é o nosso corre”.

A partir do conceito, Well e sua equipe foram desdobrando as ideias: desde a capa, que simula o movimento de corrida, até a união de fontes clássicas e extravagantes, como se ambas estivessem lutando entre si. “Cada detalhe foi muito discutido para fazer sentido no todo e fechar no mesmo ponto, saca? O SPARRING foi o máximo que eu podia chegar em questão de trabalho. O objetivo agora é manter esse nível, mas conseguir atingir a acessibilidade também, porque isso pra mim é mais importante. Uma capa bonita chama muito mais atenção do que uma capa conceitual, né? O meu objetivo é juntar esses dois elementos”.



O rapper cita como uma das referências conceituais do álbum a foto de Mohammed Ali lutando debaixo d’água. Na capa, a equipe não levou praticamente nenhuma referência da imagem, principalmente devido à logística e limitação resultante da pandemia; entretanto, a foto simboliza o esforço e a dedicação conceitual e produtiva em SPARRING.

A propósito, a pandemia da covid-19 limitou muito as possibilidades e ideias durante a conceituação do álbum – porém, felizmente, a equipe soube contornar muito bem esse episódio. O clipe de “fml’, segunda faixa do EP, é um exemplo disso: o vídeo foi inteiramente gravado através do jogo GTA, durante sessões da equipe no Discord.


CONTÉM BARRAS (2021): NINGUÉM SOBE SOZINHO


O Contém Barras foi a forma que Well encontrou para se comunicar com o seu público. Formado recentemente em conjunto com o rapper Mirral ONE, o coletivo qnipe e a DJ AKILA, o coletivo surge por acaso a partir de uma “zoeira interna” entre amigos. “Tudo que é bom é barras. Eu nem sei como é que começou e nem sei como é que vai terminar, mas foi uma parada que deu certo. Gerou comunicação, identificação e é uma brincadeira que a galera curte”.

No Contém Barras, segundo o próprio rapper, vemos o Well do dia a dia, que brinca com as rimas e que gosta de fazer piadas. “Esse produto contém barras, é um selo de qualidade pra zoar a galera”.

Dentro do coletivo, temos o grupo de rap RUADOIS, formado por ele e Mirral, o qual ficou próximo durante a pandemia, devido às partidas online de Call of Duty que jogam juntos. O primeiro trabalho do grupo é o “Proibido Estacionar Vol. 1” e, assim como os últimos trabalhos de Well, também é carregado de conceitos.

Através do “Proibido Estacionar”, em referência à placa que geralmente está em frente de garagens (outra referência, agora ao UK garage produzido pelo coletivo), o universo da RUADOIS vem sido construído.



A MINHA ARTE É PRO MUNDO


Assim como outras canções de sua carreira, “fml” é uma amostra do estilo de composição de Well: nas músicas, o rapper gosta de trazer referências das coisas que gosta e que estão no seu cotidiano – como a área em que mora, amigos, jogos, NBA, futebol… “Eu tento colocar tudo isso porque são símbolos que fazem parte do meu dia a dia, da minha vivência, e isso correlaciona com outras pessoas que escutam também, saca? Eu tento buscar essa interseção do que faz parte do meu mundo e do que também faz parte do mundo da galera”.

Para Well, a importância do público se identificar com o seu trabalho veio, principalmente, devido à recepção com a canção “Nove”, produzida em parceria com o beatmaker VHOOR. Na canção, Well traz inúmeras referências à times, campeonatos e gírias de futebol.

No último trabalho, SPARRING (2021), o rapper utilizou muito desses recursos – como é o caso de “pprt”, a sua preferida do disco. “‘Se eu derrubar três rappers, eu peço música no Fantástico?’ É uma rima provocativa, mas não deixa de trazer essas referências populares”.


(Foto: Camila Alda | @camilaalda)


Para o artista, criar identificação é a peça-chave para conquistar um público. “O primeiro passo é o mais difícil, aquele da pessoa te ouvir e dar o play. Se ela der o play e se identificar, ela vai te ouvir de novo, vai te acompanhar, vai te seguir nas redes sociais, vai te conhecer melhor e, consequentemente, você vai ganhar um fã. Eu não gosto muito de usar essa palavra, mas no final das contas é”.

Desde criar identificação até o reconhecimento midiático, tudo isso é uma consequência de seu desejo maior: fazer música para as pessoas e se comunicar com elas.

Quando eu era mais novo, eu vislumbrava muitas coisas. Eu via um vídeo do Kendrick Lamar e falava: ‘caralho! Eu sou o Kendrick também! Quero ficar de cabeça pra baixo no clipe!’. Só que, pô… eu era só um rapaz comum de Nova Lima, tá ligado? Ninguém nem sabia quem eu era. Eu olhava muito a ponta do iceberg. E o corre, que é maior, que tá por baixo, eu não via. Eu era cego. Depois que eu voltei a fazer esse trabalho de base, de formiguinha, aí sim que eu comecei a ver que é pra isso que eu faço música.


SIGA WELL NAS REDES SOCIAIS!

Instagram

Youtube

Spotify



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.