Saturday, 21 May 2022

FAIXA A FAIXA: DÊSSA SOUZA RETRATA SUA ANCESTRALIDADE NO EP “CAMADAS”

Foto: divulgação/ Dêssa Souza/ Groover

Com sangue baiano-mineiro-negro-indígena, Dêssa Souza conheceu suas primeiras influências já na infância regada a músicas de diversas vertentes, cresceu em quintais de terra, ouvindo modas de viola tocadas ao vivo perto da fogueira por seu avô e tios-avôs, além de Johnny Rivers ou Bee Gees nos bailinhos da família, tudo direto dos vinis ouvidos por seu pais, tios e tias. É mãe, artista autônoma, e na música mistura um tanto de sua alma interiorana com as batidas da cultura popular, do rap e da soul music.


No EP, ela faz um breve resumo dessas “Camadas” que compõem essa mulher preta, mãe, artista, periférica, poeta e artista do teatro, buscando retratar um pouco de sua ancestralidade que está em constante processo de descoberta, através de um repertório composto por músicas e poesias autorais e de compositores parceiros.

“Comecei a cantar no ano de 2007, costumo dizer que a música foi o gatilho pra que eu seja quem sou hoje artisticamente falando, foi a partir dela que fui estudar teatro, que conheci os saraus e o movimento de culturas da zona sul da cidade de São Paulo, onde pude realizar uma gama imensa de trabalhos como artista e produtora – de mim mesma e de outres. Depois de tantos anos sendo mãezona e cuidando de tantos ao meu redor, decidi que precisava registrar um pouco dessas minhas vivências, olhar para a minha própria história, e escolhi a música como um dos modos desse registro”, ressalta a cantora e compositora paulista.

Ouça “Dia de Vale”!


Nesse registro, todo feito em período de afastamento social, melodias de samba, soul, rap e ritmos brasileiros são misturados a batidas modernas, em diferentes camadas, hora convidando músicos parceiros, hora contando com batidas eletrônicas propostas pelos produtores convidados. Cada faixa do EP traz uma história consigo, algumas mais antigas e ressignificadas, outras nascidas no período de isolamento social, mas, todas trazendo aprendizados que ultrapassam o fazer musical.

FAIXA A FAIXA

Disponível em todas as plataformas digitais, “Camadas” foi sendo construído a diversas mãos, tendo faixas produzidas por Aghata Saan, Kenya20hz, Will Cavagnolli, Gabriel Alves e Jonathas Noh do Quebrada Groove, que também é responsável pela masterização das faixas. Lançado de forma independente, com produção executiva da coletiva articuladora cultural Pin Rolê Invenções, além do EP, também foram lançados um vídeo poema da faixa que abre o EP “Meu Chão” e um videoclipe da faixa Menina que Embala.

Meu chão
Texto e som captados em casa por Dêssa Souza sob orientação remota do músico e produtor Gago Ferreira, que trabalha a musicalização através de sons do cotidiano. A proposta era desenhar algo intuitivamente e em seguida “Ler” aquele desenho tal como uma partitura e executá-lo sonoramente. A porta veneziana do guarda-roupas virou um
reco-reco, palmas, plásticos sendo amassados, são o fundo musical do poema. Produção e mixagem por Will Cavagnolli.

Dia de Vale
Essa música marcou a chegada de Dêssa Souza no movimento de cultura da zona sul de São Paulo no ano de 2007. Cantando em bares junto ao irmão Augusto Iúna há pouco mais de um ano, os dois perceberam que o bar por mais que tenha sido esse espaço de pontapé inicial para o trabalho musical, em sua maioria não comportavam o desejo de
criação e fruição de seus trabalhos autorais. E foi no movimento de cultura da cidade de Barueri, no bar que começaram a tocar, que Dêssa e Sandro (Augusto Iúna) conheceram outros músicos e atores de teatro que já atuavam na capital, acontecendo assim a ligação dos artistas com a Zona Sul através do projeto Encontro de Compositores do músico Gunnar Vargas. “Dia de Vale” foi gravada na coletânea do projeto, e desde então tocada em saraus e festivais da Zona Sul. Apesar de já ter sido feita há 14 anos, a faixa é muito atual, pois retrata o dia de trabalho de um homem e de uma mulher periférica. No EP Camadas, a faixa ganha nova roupagem, batidas modernas e produção de Gabriel Alves.

Afago à Distância
Afago à Distância” foi inspirada em uma série de encontros para dançar ou assistir danças via internet – o projeto Corpo Hospedeiro, realizado pela bailarina Maytê Amarante. A música fala sobre a dança ter sido um afago para Dêssa e para os demais participantes da vivência. A faixa teve produção de Aghata Saan, para chegar ao que Dêssa Souza
pretendia: na melodia um sambinha simples, na base uma pegada eletrônica e dançante, uma tentativa de afago para o momento de saudades e tristeza coletiva causades pela pandemia de Covid-19.

Rio Mulher
Texto escrito em parceria com o bailarino e ator Ton Moura, como parte da dramaturgia do espetáculo que está em construção pelo Bando Trapos, coletivo que Dêssa Souza integra. A faixa é a narrativa de uma mulher que é o próprio rio, uma mulheragem, uma saudação às que vieram antes, e que abriram tantos caminhos pra que agora, mulheres
possam ser o que quiserem. Produção musical de Kenya20hz.

Menina que Embala
Menina que embala nasceu como poema, foi escrito em 2012 para a primeira antologia do Sarau do Binho. Em novembro de 2019, em uma performance que co-criei e atuei, o texto foi recitado pela poeta Nicoly Soares, e desde então, nasceu o desejo de transformá-lo em música. Em 2020, no período de afastamento social, o texto foi todo ressignificado e a letra nasceu, recebeu arranjo de Augusto Iúna e Jonatas Noh, que também assina a produção musical. Menina que Embala é grito de liberdade, é dialética, são dores e sabores da maternidade periférica transformadxs em música e poesia.

SOBRE DÊSSA SOUZA

Mãe, cantora, palhaça, artista de teatro e produtora cultural atuante desde 2006. Passou a integrar o movimento de arte e cultura da periferia sul da cidade de São Paulo no ano de 2008 como cantora da Banda Preto Soul. Em 2011 passa a estudar teatro, música e culturas tradicionais na Escola Popular de Teatro CITA, e logo, de aprendiz, passa a ser integrante da “Trupe Artemanha de investigação teatral” grupo com o qual atuou até o ano de 2014. Integrou a Banda Preto Soul por 10 anos, já cantou na 40ª Feira do Livro de Buenos Aires – junto ao Sarau do Binho – coletivo que integrou ativamente entre os anos de 2008 e 2015; Integrou o projeto o Casamento de Chiquinha e Luiz Gonzaga, parceria com o Grupo de Choro Sapato Branco.

Gravou na coletânea Mulheres Periféricas Cantam (SP 2010) e na Coletânia Encontro de Compositores (SP 2007). Cantou do Naipe de Percussões Ilá Dudu do Teatro Solano Trindade (Embu das Artes – SP) sob a direção de Vitor da Trindade. Co-criadora do experimento cênico Gingas e Narrativas – 2019; Integra desde 2014 o coletivo teatral Bando Trapos e criou dentro do grupo um núcleo de estudos cênicos para trocas entre mulheres, junto ao coletivo estreia como diretora de trilha sonora no ano de 2021. Em abril de 2021 lançou o EP Camadas, com 05 faixas autorais e de compositores parceiros.

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